A conformidade fitossanitária voltou ao centro das preocupações da cadeia da soja brasileira após episódios recentes de retenção e devolução de cargas destinadas à China. Em resposta a esse cenário, a Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil) lançou nesta terça-feira (02) uma cartilha voltada à identificação e ao manejo de pragas quarentenárias, organismos considerados de alto risco econômico para a agricultura nacional.
O material reúne orientações técnicas para produtores rurais e reforça a adoção do manejo outonal como ferramenta preventiva para reduzir a incidência dessas pragas nas lavouras. Durante o lançamento, também foram promovidas capacitações em boas práticas agrícolas e uma campanha de conscientização sobre os impactos econômicos e comerciais associados ao tema.
Risco para a produção e para as exportações

Cartilha traz exemplos de plantas daninhas consideradas quarentenárias
Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), pragas quarentenárias são organismos como insetos, fungos, bactérias, vírus ou plantas daninhas que podem causar prejuízos significativos à produção agrícola e comprometer o comércio internacional. Por esse motivo, estão sujeitas a medidas oficiais de prevenção, controle ou erradicação.
O engenheiro agrônomo, doutor em Plantas Daninhas e professor da Universidade de Passo Fundo, Mauro Antônio Rizzardi, explica que essas pragas são classificadas em três categorias: quarentenárias ausentes, quarentenárias presentes e não quarentenárias regulamentadas. Cada uma exige protocolos específicos de monitoramento e controle.
A preocupação ganhou força nos últimos meses após cerca de 20 navios carregados com grãos brasileiros serem devolvidos ou retidos por autoridades chinesas devido à identificação de sementes de plantas daninhas e vestígios de pragas não presentes naquele país.
O impacto financeiro dessas ocorrências é expressivo. Além dos custos logísticos para redirecionamento ou reprocessamento de cargas que podem chegar a aproximadamente 69 mil toneladas por embarcação, o setor também enfrenta multas contratuais, cancelamento de negócios e redução dos prêmios de exportação.
Há ainda reflexos na reputação internacional do país. Como cerca de 80% da soja exportada pelo Brasil tem a China como destino, incidentes fitossanitários podem resultar em inspeções mais rigorosas, atrasos no desembarque das cargas e perda de competitividade frente a outros fornecedores globais.
Manejo outonal ganha relevância

Lançada nesta terça-feira (02), cartilha traz informações sobre pragas quarentenárias
A cartilha destaca o manejo outonal como uma das principais estratégias para reduzir a presença de pragas quarentenárias. A prática consiste na adoção de medidas fitossanitárias durante a entressafra, entre a colheita das culturas de verão e o início do próximo ciclo produtivo.
O objetivo é eliminar plantas daninhas, tigueras e outras hospedeiras que funcionam como abrigo para pragas e doenças. Com isso, reduz-se o banco de sementes de invasoras e interrompe-se o ciclo reprodutivo de organismos que podem comprometer a qualidade dos grãos e a produtividade futura. “A introdução de novas espécies vegetais no sistema produtivo de um país é uma questão de soberania nacional. Qualquer parte de planta, pólen, semente ou propágulo que possa sobreviver e se reproduzir no ambiente é um potencial dano tanto ao sistema produtivo local ou mesmo ao processo de exportação da produção agrícola”, afirma Rizzardi.
A preocupação é ainda maior diante das projeções para a próxima safra. O Brasil estima colher mais de 350 milhões de toneladas de grãos no ciclo 2026/27. Nesse contexto, perdas entre 10% e 15% associadas ao manejo inadequado de pragas podem representar prejuízos bilionários para o setor.
Compromisso com a reputação da soja brasileira
Para o diretor executivo da Aprosoja Brasil, Fabrício Morais Rosa, os recentes episódios envolvendo cargas exportadas demonstram que a atenção às exigências fitossanitárias se tornou um requisito estratégico para a manutenção dos mercados compradores. “Com esta Cartilha, a Aprosoja Brasil continuará com o compromisso assumido de alertar os produtores sobre a identificação equivocada de pragas quarentenárias a fim de manter em alta a reputação da soja brasileira frente aos compradores externos”, ressalta.
Pragas monitoradas
Entre as pragas classificadas pelo Mapa como quarentenárias estão o Ácaro Hindustânico, a Broca-do-caroço-da-manga, o Cancro Cítrico, o Cancro da Videira, o Cancro Europeu das Pomáceas, o Greening dos citros, a Mosca-da-carambola, a Moko da Bananeira, a Vassoura-de-bruxa da Mandioca e espécies de caruru consideradas de difícil controle e alto potencial invasivo.
O monitoramento dessas ocorrências é considerado essencial para preservar a produtividade das lavouras e garantir a continuidade das exportações brasileiras em um mercado cada vez mais rigoroso em relação às exigências sanitárias.
