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O risco invisível que ameaça as exportações do agro

As restrições europeias não expõem apenas uma disputa comercial. Expõem algo mais grave: o Brasil ainda quer competir em mercados sofisticados sem provar, com profundidade, a origem, a conformidade e os riscos escondidos na própria cadeia de suprimentos.

Artigo escrito por André Veneziani, vice-presidente Comercial da C-MORE

Existe uma resistência do mercado brasileiro em relação às restrições europeias à carne nacional. Sempre que surge uma exigência mais dura, a reação automática é a mesma: culpar a Europa, falar em protecionismo, denunciar hipocrisia regulatória, reclamar da assimetria e transformar a discussão inteira em um teatro previsível de vitimização comercial.

É um reflexo compreensível, mas perigoso. Porque, mesmo quando existe interesse geopolítico, um viés ou disputa de mercado embutida, isso não anula a pergunta central que o Brasil evita encarar: e se o problema não for apenas a barreira europeia, mas a opacidade brasileira?

Essa é a pergunta que realmente importa. A Europa não está apenas colocando pressão sobre a carne brasileira. Está expondo uma fragilidade estrutural de grande parte das cadeias produtivas do país: nós ainda confundimos produção eficiente com cadeia confiável.

Produção eficiente não basta

Confundimos produção eficiente com cadeia confiável. Durante muito tempo, bastava produzir em escala e com custo competitivo para garantir o mercado. Hoje, o mundo mudou. Mercados sofisticados não compram apenas o produto; compram rastreabilidade, governança e previsibilidade. O que está em julgamento não é mais o que foi exportado, mas o sistema que existe por trás dele.

Foto: Shutterstock

Esse é o ponto que o caso da carne escancara. O produto deixou de ser analisado isoladamente. O que está em julgamento agora é o sistema que existe por trás dele. A discussão já não gira apenas em torno do que foi exportado, mas de quem produziu, de onde veio, em quais condições, com qual monitoramento e com qual capacidade de auditoria.

Isso muda tudo. A União Europeia é hoje o segundo maior mercado para carnes brasileiras em valor, atrás apenas da China. Em 2025, comprou cerca de 368,1 mil toneladas, em negócios que somaram US$ 1,8 bilhão. Só em carne bovina, foram mais de US$1 bilhão.

Mercado quer provas 

O tempo da confiança presumida acabou. O mercado quer provas, e isso significa demonstrar controle sobre a cadeia inteira, inclusive onde as empresas preferem não olhar. O risco mais sério raramente está no fornecedor direto; ele vive nos elos pulverizados, nos fornecedores indiretos e intermediários invisíveis onde a governança corporativa vira ficção e a operação funciona na base da esperança.

Foto: Edinan Ferreira

Uma empresa que não enxerga seus indiretos não administra risco, ela apenas terceiriza a própria vulnerabilidade. Cadeia desorganizada não é só um problema moral ou de compliance; é um problema financeiro. Estudos globais mostram que disrupções severas na cadeia podem custar quase 45% do lucro anual de uma companhia. Rastreabilidade não é um “luxo ESG”, é sobrevivência econômica.

E a parte mais desconfortável é que isso não para na pauta ambiental. A cadeia opaca também concentra risco trabalhista, fragilidade documental e exposição reputacional internacional. A agricultura continua sendo o principal setor de incidência de trabalho infantil no mundo. Isso não autoriza acusações simplistas contra uma cadeia específica. Mas impõe uma consequência inevitável: em mercados sofisticados, quem não consegue demonstrar controle suficiente passa a carregar suspeita estrutural maior.

Risco invisível também custa dinheiro

E suspeita, hoje, custa dinheiro. O mercado internacional não está esperando confessionários corporativos. Está exigindo mecanismos de prova. A nova regulação europeia associada a produtos ligados ao desmatamento é apenas uma manifestação mais explícita desse movimento. Antes de acessar o mercado, será cada vez mais necessário apresentar diligência, documentação, declaração formal e rastreabilidade minimamente robusta.

Foto: Marcello Casal

O jogo deixou de ser discursivo para ser probatório. As novas regulações europeias contra o desmatamento são apenas a manifestação mais explícita desse movimento. Não interessa mais se a empresa “fala bem” sobre clima ou ética; interessa se ela consegue demonstrar onde está exposta e como evita que o risco se transforme em perda operacional.

No Brasil, isso é ainda mais grave porque nossas cadeias dependem fortemente de território, clima, logística longa, origem pulverizada e alta sensibilidade regulatória. Ou seja: se não houver inteligência real sobre a cadeia, a empresa não controla risco, ela apenas convive com ele até ser punida por ele.

O Brasil ainda insiste em vender para o século 21 com mecanismos mentais do século 20. Ainda acha que escala resolve, que preço compensa e que compliance é apenas um documento. Cadeia de suprimentos virou estratégia e acesso ao mercado.

A próxima grande vantagem competitiva global não será produzir mais, será provar melhor. Quem não conseguir demonstrar controle sobre sua origem continuará chamando de “barreira internacional” o que, na verdade, já é incompetência estratégica disfarçada de indignação. No novo comércio global, não perde mercado quem produz menos. Perde mercado quem enxerga menos do que deveria.

A próxima grande vantagem competitiva global não será produzir mais, será provar melhor. Quem não conseguir demonstrar controle sobre sua origem continuará chamando de “barreira internacional” o que, na verdade, já é incompetência estratégica disfarçada de indignação. No novo comércio global, não perde mercado quem produz menos. Perde mercado quem enxerga menos do que deveria. Porque, no fim, a questão não é se o Brasil sabe produzir. Sabe. A questão é se sabe provar.

Provar origem, conformidade, controle. Provar que a cadeia não é um discurso elegante sustentado por zonas de sombra. Porque, no novo comércio global, não perde mercado quem produz menos. Perde mercado quem enxerga menos do que deveria. E a verdade mais incômoda talvez seja esta: o risco que vai tirar empresas brasileiras dos mercados mais sofisticados não será, necessariamente, o desmatamento, o clima, a Europa ou a regulação. Será a cegueira.

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