
O comportamento dos preços das commodities agrícolas nem sempre acompanha de forma imediata os fundamentos de oferta, demanda, clima e estoques. Segundo Maria Flávia Tavares, economista e doutora do agronegócio, o posicionamento dos fundos no mercado futuro também pode exercer influência relevante sobre as cotações.
No dia 1º de setembro, os fundos especulativos atingiram o maior volume de compra de milho já registrado na série histórica da CFTC. O movimento representou o maior nível de capital concentrado no mesmo lado do mercado desde 2011, indicando uma forte exposição dos investidores à valorização do cereal.
Dez dias depois, o USDA divulgou um relatório com números considerados favoráveis aos preços. Mesmo diante desse cenário, o milho recuou. Na avaliação apresentada por Maria Flávia, a reação não esteve ligada ao clima, à safra ou aos estoques, mas ao posicionamento dos participantes financeiros.
A leitura tradicional do mercado de commodities costuma priorizar relatórios como o WASDE, condições climáticas e desempenho das exportações. No entanto, a formação de preços também envolve fundos algorítmicos e CTAs, que realizam operações seguindo tendências e modelos automáticos, sem necessariamente considerar diretamente as condições das lavouras.
Outro movimento observado é a tentativa de entrada de novos participantes nesse ambiente. A Kalshi chegou a listar contratos de preço de milho e soja neste ano, mas recuou após reação do setor agrícola. Agora, mantém em análise na CFTC um pedido para oferecer contratos perpétuos de milho e trigo, ainda sem aprovação.
Para Maria Flávia, os fundamentos continuam tendo peso importante, mas precisam ser analisados em conjunto com o fluxo financeiro e o posicionamento dos agentes. Essa abordagem é apresentada por ela em palestras voltadas a produtores, cooperativas e equipes de comercialização, com foco na leitura dos diferentes fatores que interferem na formação dos preços agrícolas.
