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A Voz do Mercado debate riscos do El Niño para a safra 2026/27

O El Niño já está instalado no Pacífico e deve ganhar força durante a primavera, aumentando os riscos climáticos para a safra 2026/27. O cenário foi discutido nesta quarta-feira (16), durante a 33ª edição do talk show “A Voz do Mercado”, que reuniu especialistas em meteorologia, inteligência de mercado e economia agrícola para avaliar os possíveis impactos sobre o agronegócio brasileiro.

O evento, mediado por Ivan Wedekin e Suelen Farias, teve como tema “O Agro e o El Niño: previsões, riscos e estratégias”. Participaram Gabriel Rodrigues, meteorologista do Agrotempo e especialista em Inteligência Climática para o Agro; Yedda Monteiro, especialista em Inteligência de Mercado e Commodities Agrícolas; e Cleiton Gauer, superintendente do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (IMEA). A transmissão foi realizada ao vivo pelo canal do Portal Agrolink no YouTube.

Para assistir o programa na íntegra, clique aqui.

Segundo Gabriel Rodrigues, o fenômeno não está começando agora. O El Niño já está instalado no Pacífico desde junho, e a atualização do NOAA aponta para mais de 90% de chance de o evento chegar à categoria muito forte e cerca de 75% de possibilidade de ser o mais intenso desde 1950. O pico é esperado entre outubro e dezembro, período que coincide com o plantio da safra de verão.

Rodrigues aponta quatro principais riscos para o agronegócio: calor acima da média, irregularidade das chuvas no Centro-Oeste e no Matopiba, excesso de precipitação no Sul e impactos sobre a logística provocados por rios mais baixos no Norte. “Mas um ponto é essencial: El Niño forte aumenta a probabilidade desses impactos, não garante que eles aconteçam em cada propriedade. É risco a ser gerenciado com informação”, afirma.

No Sul, segundo o meteorologista, a tendência é de chuva acima da média durante a primavera, com volumes maiores em outubro e novembro. O excesso de precipitação representa risco imediato para o trigo em fase de colheita, com possibilidade de grãos germinarem na espiga, perda de peso do hectolitro e ocorrência de micotoxinas. Para a soja e o milho de verão, o histórico do fenômeno costuma favorecer o Rio Grande do Sul, mas exige atenção à drenagem, conservação do solo, semeadura em condições adequadas e monitoramento de doenças. No Centro-Oeste, o sinal mais consistente é de temperaturas elevadas e, em locais como Sinop e Marcelândia, redução dos dias com chuva efetiva. No Mato Grosso, episódios de El Niño muito fortes, especialmente em 2015/16, estiveram associados a atrasos no início das chuvas em municípios como Lucas do Rio Verde, Nova Mutum, Querência e Campo Novo do Parecis. O estudo citado pelo meteorologista indica ainda que cada semana de atraso na semeadura reduz de cinco a dez dias a janela de chuva. Norte e Nordeste tendem a registrar chuva abaixo da média e rios mais baixos, enquanto no Sudeste, região de transição, a irregularidade e o calor podem afetar culturas como café e cana.

Para Yedda Monteiro, um dos principais pontos de atenção para a soja está relacionado à janela de plantio e, consequentemente, ao espaço disponível para a segunda safra. Segundo ela, produtores têm adotado diferentes referências de umidade antes de iniciar a semeadura. “Muitos dos produtores têm esperado chegar até pelo menos os 100 milímetros de chuva para que eles possam iniciar esses plantios, ou alguns outros, olhando nos 70 a 80 milímetros, já têm iniciado esse plantio. Especialmente ali no Mato Grosso”, explica.

De acordo com a especialista, a estratégia busca evitar que uma eventual escassez de chuva comprometa a implantação da soja e reduza ainda mais a janela para a safrinha. Para a especialista, Paraná e Mato Grosso já começam a plantar, enquanto grande parte do país deve avançar com a semeadura entre meados e a segunda quinzena de outubro, período em que a ocorrência de chuvas será determinante.

A formação do preço da soja também exige atenção, segundo Yedda. “A gente está falando de três componentes que formam esse preço em reais por saco: a gente tem Chicago, que é a bolsa referência, a gente tem o dólar e a gente tem o prêmio, que é esse desconto que a gente tem trazendo o preço para o interior”, afirma. Ela destaca que fatores externos, como a demanda por petróleo e seus reflexos sobre o biodiesel, além dos conflitos internacionais e da dinâmica de compras da China, influenciam o mercado. Para a safra 2026/27, os prêmios têm permanecido mais sustentados, enquanto a possibilidade de uma produção brasileira mais apertada e a presença da demanda podem manter os preços firmes. Nesse cenário, a recomendação apresentada durante o debate é evitar concentrar as vendas e trabalhar com comercialização escalonada, aproveitando diferentes momentos de Chicago, dólar e prêmio.

Cleiton Gauer afirma que os produtores de Mato Grosso já trabalham com diferentes estratégias para reduzir a exposição aos riscos climáticos. Entre elas estão a antecipação e a distribuição do plantio dentro da janela disponível, especialmente diante da chamada “chuva de manga”, quando uma área recebe precipitações enquanto outra, a poucos quilômetros de distância, permanece seca. “Quem foi agraciado acaba adiantando, tentando diluir um pouco desse risco de ser um cenário, uma janela mais extensa de semeadura para que consiga diluir partes desse risco de acidente dentro do sistema produtivo”, explica. Gauer também cita o seguro rural como uma alternativa que começa a ganhar espaço no estado e destaca a busca por culturas alternativas, como gergelim e sorgo, que podem demandar menos água.

O superintendente do IMEA também chama atenção para a importância da diversificação das estratégias diante da baixa área irrigada no estado. Segundo ele, Mato Grosso possui menos de 2% da área irrigada, o que mantém grande parte da produção dependente das condições climáticas. “Então é um processo que realmente Mato Grosso vem construindo ao longo do tempo e tentando trabalhar diversas alternativas para tentar minimizar um pouco desses impactos, sabendo que nós temos um risco muito grande, principalmente para cima da safra do estado”, afirma.

Ao avaliar especificamente o milho segunda safra, Gauer considera que o histórico de El Niños intensos exige cautela nas projeções para Mato Grosso. Segundo ele, os últimos dois anos foram decepcionantes em produtividade e, diante do cenário climático projetado, o IMEA não trabalha inicialmente com a possibilidade de recordes. O estado, que atualmente possui cerca de 7,5 milhões de hectares de milho, pode sentir impactos relevantes mesmo com pequenas perdas na janela de plantio. Gauer cita 2016 como referência de um ano em que as chuvas terminaram mais cedo e algumas áreas não chegaram a ser colhidas, com cerca de 10% de abandono. “Nas projeções iniciais e nos modelos que rodamos tentando prever esse impacto, modelando a intensidade do El Niño e seu reflexo na produtividade estadual, estamos trabalhando com uma estimativa de 90% para a safra; um desenho já bastante comedido para tentar prever e projetar o reflexo disso na produção”, afirma.

O milho, por outro lado, apresenta um cenário de preços mais favorável, segundo Gauer. A melhora das cotações nos últimos meses e a perspectiva de aumento da área cultivada podem estimular o produtor, principalmente porque a segunda safra contribui para diluir custos e gerar uma nova entrada de receita ao longo do ano. Ainda assim, diante do risco climático, a avaliação inicial do IMEA é de que a próxima temporada “realmente não será o melhor ano da história”.

O cenário apresentado durante o debate reforça que o retorno do El Niño não determina sozinho o resultado da safra. O risco varia conforme a região, a cultura, a época de plantio e a combinação das condições atmosféricas.

Diante das incertezas, os participantes do debate reforçaram a importância de acompanhar o clima e o mercado durante toda a safra. O comportamento regional das chuvas, as temperaturas, as janelas de plantio e as condições de comercialização devem integrar o planejamento das propriedades.

A edição do talk show contou com apoio do Agrolink e Abisolo.
 

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