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Goiás encerrou 2025 como o maior produtor de tomate do Brasil. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o estado respondeu por cerca de 1,6 milhão de toneladas, o equivalente a 35% de toda a produção nacional. A liderança, porém, é ainda mais acentuada quando o recorte considera apenas o tomate destinado ao processamento industrial.
Nadson Pontes, professor do IF Goiano e pesquisador do Centro de Excelência em Bioinsumos, aponta que a produção brasileira voltada à indústria está concentrada principalmente em Goiás, São Paulo e Minas Gerais, com os produtores goianos respondendo por cerca de 70% desse segmento.
Essa concentração não surgiu de uma única vantagem. Ela foi construída pela combinação entre condições do Cerrado, disponibilidade de irrigação, possibilidade de mecanização, desenvolvimento tecnológico dos produtores e instalação das próprias indústrias processadoras próximas às áreas agrícolas.
O movimento ganhou força principalmente a partir da década de 1990. Naquele período, enquanto tradicionais regiões produtoras perderam espaço, o Cerrado de Goiás e Minas Gerais ampliou área e produção. Pesquisa publicada na revista Horticultura Brasileira aponta que, em 1990, a região respondia por 24% da área nacional de tomate industrial. Em 2000, essa participação já havia chegado a 77%.
O avanço veio acompanhado de ganhos de produtividade, adoção de novas tecnologias de manejo e expansão da colheita mecanizada. Ao mesmo tempo, empresas processadoras redirecionaram investimentos para o Centro-Oeste, reforçando a integração entre produção agrícola e indústria.
Cerrado favoreceu irrigação e mecanização
A produção brasileira de tomate para processamento ocorre principalmente durante a estação seca, entre março e setembro. Em Goiás, esse período coincide com uma época de menor ocorrência de chuvas, fazendo com que a irrigação tenha papel central no sistema produtivo. A Embrapa aponta que as lavouras goianas são predominantemente irrigadas por pivô central.
O período seco permite maior controle sobre a quantidade de água fornecida às plantas e favorece operações no campo, mas exige estrutura de irrigação para manter o desenvolvimento da cultura. Tanto o déficit quanto o excesso hídrico podem provocar perdas de produtividade e qualidade.
O relevo também teve participação nessa expansão. Áreas mais planas do Cerrado facilitaram a entrada de máquinas no plantio e, principalmente, na colheita, etapa que passou por uma transformação profunda nas últimas décadas.
Essa mudança aparece na própria trajetória dos produtores. Fábio Alves, que cultiva tomate há mais de três décadas na região de Itaberaí, em Goiás, acompanhou a passagem de uma produção em que o tomate era semeado diretamente no campo e a colheita manual exigia três entradas na lavoura para um sistema no qual as mudas chegam prontas ao produtor e a retirada dos frutos é feita de forma mecanizada, em uma única operação.
Parceiro da Kraft Heinz há mais de duas décadas, Alves trabalha atualmente com irrigação, equipamentos de precisão e maquinário de colheita. Para o produtor, a evolução tecnológica permitiu aumentar a capacidade operacional e mudou profundamente a forma de produzir tomate no estado.
A combinação entre mecanização e irrigação permitiu a formação de propriedades especializadas e capazes de trabalhar em escala. Pontes destaca que esse perfil está diretamente ligado ao planejamento das demais culturas utilizadas ao longo do ano.
“O produtor de tomate para processamento industrial, tomate indústria, ele é um produtor muitas vezes irrigante, então ele tem uma área, um pivô central. Para otimizar os seus equipamentos ele vai tentar entrar com a soja nas primeiras janelas, e ele tem que ter muito nítido na cabeça dele, no planejamento dele, entre o final do cultivo da soja ou de um milho verão ou de um milho doce e o início do plantio do tomate, quanto tempo ele tem ali para manejar.”
O nível tecnológico aparece também nos números atuais. Em 2024, considerando conjuntamente tomates de mesa e destinados à indústria, Goiás registrou rendimento médio de 93,4 toneladas por hectare, 23,5% acima da média brasileira, segundo a Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento do estado. A área cultivada passou de 10 mil hectares em 2015 para 15,7 mil hectares em 2024.
Indústria perto da lavoura fecha a cadeia
A presença das unidades de processamento próximas das regiões produtoras é outra peça importante dessa estrutura.
Por ser uma matéria-prima altamente perecível, o tomate industrial exige coordenação entre colheita, transporte e processamento. Na operação da Kraft Heinz acompanhada pelo Notícias Agrícolas em Goiás, por exemplo, a companhia trabalha para que o intervalo entre a retirada do fruto da lavoura e sua chegada à indústria não ultrapasse seis horas.
Lucas Paschoal, Diretor de Agricultura da Kraft Heinz no Brasil, explica que cumprir esse intervalo exige uma operação coordenada entre colheita, transporte e recebimento. Segundo o executivo, Goiás reúne condições climáticas favoráveis à cultura, produtores especializados e uma estrutura produtiva que permite manter as áreas agrícolas próximas das unidades de processamento.
A produção agrícola da empresa está concentrada em Goiás e é realizada por produtores parceiros. Após a colheita, o tomate segue para a unidade de Nerópolis, onde é transformado em pasta, que posteriormente pode seguir para outras etapas de fabricação.
A proximidade entre lavoura e processamento transforma a localização das fábricas em parte da própria lógica produtiva. Ao mesmo tempo em que a oferta agrícola favorece a presença da indústria, a capacidade instalada de processamento cria demanda para produtores especializados na cultura.
Essa relação também ajuda a explicar por que a concentração se manteve ao longo do tempo. Estudos sobre a evolução da cadeia mostram que, conforme a produção migrou para o Cerrado nas décadas de 1990 e 2000, empresas processadoras também instalaram ou concentraram unidades na região.
Hoje, a Secretaria de Agricultura de Goiás destaca Cristalina, Silvânia e Morrinhos entre os principais municípios produtores do estado, com a atividade distribuída principalmente pelo sul e sudeste goiano e pelo entorno do Distrito Federal.
A liderança, porém, não elimina os riscos da atividade. Pontes destaca que Goiás enfrenta forte pressão de geminiviroses transmitidas pela mosca-branca, exigindo planejamento de plantio, materiais resistentes e manejo integrado. O calendário sanitário estadual estabelece uma janela específica para o transplantio e um período sem plantas de tomate justamente para reduzir a população do vetor.
O clima também continua sendo uma variável decisiva. Em 2026, o excesso de chuvas atingiu áreas produtoras de Goiás e contribuiu para a redução da projeção nacional de tomate destinado ao processamento.
A posição construída pelo estado, portanto, não depende apenas de uma condição natural favorável. O polo goiano é resultado da combinação entre características do Cerrado, disponibilidade de irrigação, mecanização, produtores especializados, desenvolvimento tecnológico e uma estrutura industrial instalada próxima às lavouras — elementos que, ao longo de mais de três décadas, fizeram a produção e o processamento avançarem juntos.
