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De ração para suínos a 179 milhões de toneladas: a história da primeira semente comercial de soja desenvolvida no Brasil

A história da soja brasileira passa diretamente por Santa Rosa, no noroeste do Rio Grande do Sul. Foi ali que, em 1966, durante a primeira edição da Fenasoja, foi lançada a cultivar Santa Rosa, considerada a primeira variedade genuinamente brasileira de importância comercial. A partir dela, o país iniciou a construção de uma cadeia produtiva que hoje responde por cerca de 6% do PIB nacional e transformou o Brasil no maior produtor e exportador mundial de soja.

Em 2026, a cultivar e a feira que ajudou a projetá-la completam 60 anos, marcando um dos capítulos mais relevantes da modernização agrícola brasileira.

Foto: Divulgação

A trajetória da soja na região começou muito antes do lançamento da cultivar. Em 1914, o pastor norte-americano Albert Lehenbauer levou as primeiras sementes ao noroeste gaúcho, em um período marcado por pobreza e insegurança alimentar entre os colonos descendentes de imigrantes europeus instalados na região.

Naquele momento, a soja ainda estava distante de qualquer valor comercial. O cultivo surgiu inicialmente como alternativa alimentar para as famílias e para os animais criados nas pequenas propriedades, especialmente os suínos.

Não existiam indústrias processadoras, estrutura logística ou mercado consolidado. O grão era utilizado como alimento básico e fonte de proteína animal dentro das próprias comunidades rurais.

Com o passar das décadas, o cultivo começou a ganhar escala e importância econômica. Em 1941, Santa Rosa recebeu a primeira indústria processadora de soja do Brasil, marco considerado decisivo para o desenvolvimento da cadeia produtiva nacional.

O movimento consolidou a região como um dos principais polos pioneiros da cultura no país. A soja que inicialmente servia como alimento de subsistência e ração animal passou a ocupar posição estratégica na economia agrícola brasileira e abriu caminho para a expansão da cultura em outras regiões do país, especialmente no Centro-Oeste.

Quando paramos de depender da semente estrangeira

Até os anos 1960, cultivar soja no Brasil significava depender de variedades norte-americanas desenvolvidas para condições climáticas distintas das brasileiras. A adaptação era parcial e a produtividade, irregular. Foi no Instituto Agronômico de Campinas (IAC) que a história começou a mudar.

Em 1952, com a orientação do melhorista norte-americano Leonard Williams, do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, e do pesquisador Shiro Miyasaka, foi estruturado um novo programa de melhoramento de soja no IAC. Um ano depois, em 1953, os dois realizaram o cruzamento entre as linhagens D 49-772 e La 41-1219. ambas de origem americana, dando origem ao material genético que se tornaria a cultivar Santa Rosa.

A linhagem resultante, identificada como L-326, foi introduzida no Rio Grande do Sul pela Secretaria de Agricultura do Estado e passou por testes em área experimental em Júlio de Castilhos. Em 1964/65, foi iniciada a multiplicação, com apenas 2 quilos de semente plantados. Foi Juarez Guterres, técnico agrícola da Secretaria de Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul, que reconheceu o potencial daquele material, trouxe-o para os campos experimentais de Santa Rosa e conduziu os ensaios que confirmaram o que o campo já sinalizava.

Em 1966, a cultivar foi lançada oficialmente na 1ª Fenasoja, batizada com o nome da cidade que havia apostado no grão antes de qualquer outro lugar no Brasil. Em 1967, após treinamento nos Estados Unidos, Romeu Kiihl reestruturou o programa de melhoramento de soja do IAC com foco na adaptação a baixas latitudes e os primeiros melhoristas da Embrapa Soja, criada em 1975, saíram diretamente desse mesmo programa.

Uma cultivar que conhecia a terra em que pisava

Foto: Divulgação/Dedev/Cidasc

A Santa Rosa não era apenas uma variedade nova. Era uma declaração. De ciclo tardio e altura de planta de 91 centímetros, contra os 65 centímetros da Bragg, cultivar americana mais utilizada na época, combinava rusticidade com boa produtividade. Suas características a tornaram a cultivar mais adotada por agricultores de pequenas propriedades, inclusive em consórcio com milho, modalidade fundamental para a agricultura familiar da época.

Foi amplamente cultivada em todo o Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Minas Gerais desde o final dos anos 1960. No Rio Grande do Sul, foi a cultivar mais plantada nos últimos anos da década de 1960 e nos primeiros da de 1970, representando 39,3% de toda a semente fiscalizada produzida no estado em 1972/73.

Entre 1969 e 2001, foram produzidos no Rio Grande do Sul 9.381.424 sacos de 50 kg de semente fiscalizada da Santa Rosa. Figurou entre as cultivares recomendadas até 1993/94. Para os produtores gaúchos que a plantaram pela primeira vez, a diferença era visível a olho nu: a lavoura respondia, crescia no tempo certo e entregava o que prometia. Indubitavelmente, a Santa Rosa integra, ao lado das cultivares Amarela Comum, Bragg, IAS 5, BR-4 e BR-16, o grupo das cultivares mais importantes de todos os tempos para a soja no Rio Grande do Sul.

Mãe de todas as cultivares

Foto: Gilson Abreu

O impacto foi imediato na lavoura e definitivo na ciência. A Santa Rosa tornou-se a matriz genética do melhoramento brasileiro, material parental para as cultivares que vieram depois. A Embrapa, criada em 1975, herdou essa base e a multiplicou: em 25 anos de pesquisa, desenvolveu 159 cultivares que possibilitaram o plantio da soja em 13 estados brasileiros.

Cada geração de variedades carregou no código genético a herança da Santa Rosa: mais produtividade, mais resistência, mais adaptação. As cultivares de hoje combinam alta produtividade, estabilidade e alcance regional que seria impossível imaginar sem a base que 1966 estabeleceu.

Escala nacional

Foto: Jonathan Campos/AEN

A família Daltrozo ilustra em movimento o que a variedade Santa Rosa representou em escala nacional. Nos anos 1970, os irmãos Osvaldo, Wilson, Luiz Carlos e Darci saíram de Cruz Alta, a 141 quilômetros de Santa Rosa, levando consigo sementes e determinação. Foram pioneiros na produção de soja em Primavera do Leste, no Mato Grosso, hoje um dos principais municípios produtores do país.

Assim como a família Daltrozo levou a semente para o Centro-Oeste diversas famílias de produtores percorriam centenas de quilômetros de volta a Santa Rosa para buscar as sementes que plantariam na safra seguinte. Santa Rosa não era apenas o ponto de partida, era o abastecedor, a referência, o elo que conectava o Cerrado ao berço da soja brasileira. Cinco décadas depois, Lucas Daltrozo, neto de Wilson, segue cultivando soja na mesma terra que a família desbravou, e carrega na memória o peso daquele gesto. “A família seguiu o legado de resiliência que levou a cultivar Santa Rosa àquela região, e de outras pessoas que abriram fronteiras agrícolas e contribuíram para que o Brasil se tornasse o maior produtor de soja do mundo”, salienta Lucas, produtor rural em Primavera do Leste (MT)

Feira que nasceu junto com a semente

A produtividade esperada atualmente é de 2.350 kg/ha, com expectativa de colher 1.842.419 toneladas – Foto:Pacheco Fotografias/Fenasoja

A Fenasoja nasceu no mesmo ano e pelo mesmo motivo: dar à soja um espaço formal onde ciência, mercado e produtor pudessem se encontrar. Era pequena, regional, cabia em um único pavilhão. Sessenta anos depois, é um dos maiores eventos do agronegócio nacional, com centenas de expositores, público de todo o Brasil e de países vizinhos, lançamentos de genética, maquinário e insumos, e bilhões de reais em negócios a cada edição.

A trajetória da feira e a da cultivar são a mesma história contada em dois formatos: a de um estado que acreditou no grão antes de qualquer outro lugar no país e que, por isso, tornou-se o ponto de partida de tudo que viria depois. “O Rio Grande do Sul foi o único estado no Brasil que teve coragem de plantar soja quando ninguém sabia o que ela poderia se tornar. A Santa Rosa é o símbolo disso. Ela nasceu aqui, cresceu aqui e foi daqui que o Brasil aprendeu a cultivar o grão que hoje alimenta o mundo. Sessenta anos depois, comemorar a Santa Rosa na Fenasoja é reconhecer que essa história não começou nos cerrados, não começou nas grandes fazendas, começou no Noroeste gaúcho, nas mãos de colonos que plantaram com fome e colheram com esperança”, exalta Marcos Servat, presidente da Fenasoja.

De acordo com a pesquisadora da Embrapa Soja, Mônica Zavaglia, a Santa Rosa é uma das cultivares mais importantes para o desenvolvimento da soja como cultura nacional. “Ela foi desenvolvida pelo Instituto Agronômico de Campinas a partir do cruzamento de duas variedades norte-americanas, mas foi no Rio Grande do Sul que encontrou sua vocação. Foi o estado gaúcho que ajudou a construir o legado que o Brasil carrega até hoje como maior produtor mundial de soja”, ressalta.

De 206 mil para 179 milhões de toneladas

O Brasil produzia 206 mil toneladas de soja em 1960. Na safra 2025/26, a projeção da Conab é de 179,2 milhões de toneladas. Com os avanços genéticos que a Santa Rosa inaugurou, a produtividade média das lavouras brasileiras saltou de mil para quatro mil quilos por hectare. O complexo soja, formado pelo grão, farelo e óleo, responde por aproximadamente 6% do PIB brasileiro e é o principal produto de exportação do agronegócio nacional.

Santa Rosa, a cidade que registrou o primeiro cultivo comercial em 1914, que recebeu a primeira indústria processadora do país em 1941, que batizou a primeira cultivar genuinamente brasileira em 1966 e que sedia a Fenasoja há seis décadas, é o ponto de partida de toda essa história. A soja que começou como ração de suíno no Noroeste gaúcho hoje alimenta bilhões de pessoas em quatro continentes. O grão que era administrado nos cochos dos colonos virou o maior ativo do agronegócio brasileiro. E tem endereço de origem: chama-se Santa Rosa.

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