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O Brasil na terceira posição mundial em exportações veio para ficar?

O Brasil encerrou 2025 ocupando, pela primeira vez, a terceira posição no ranking mundial de exportações de carne suína. O dado chama atenção, mas não se sustenta isoladamente. Ele é resultado de um conjunto de movimentos que envolvem mudanças no comércio internacional, rearranjos de demanda, decisões estratégicas no campo e na indústria e uma construção produtiva que vem sendo feita ao longo de anos. Diante desse cenário, a questão central que se impõe não é apenas a posição alcançada, mas se esse avanço é estrutural ou circunstancial – e se pode ser sustentado nos próximos anos.

Levantamentos da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) indicam que os embarques brasileiros de carne suína totalizaram 1,510 milhão de toneladas em 2025, volume 11,6% superior ao registrado em 2024, quando as exportações somaram 1,352 milhão de toneladas. Trata-se de um recorde histórico para o setor. Em termos de receita, as vendas externas alcançaram US$ 3,619 bilhões, crescimento de 19,3% em relação aos US$ 3,033 bilhões do ano anterior.

Presidente da ABPA, Ricardo Santin: “Esse avanço é resultado, antes de tudo, de fatores estruturais da suinocultura brasileira, ainda que o contexto internacional tenha acelerado esse movimento em alguns momentos” – Foto: Jaqueline Galvão/O Presente Rural

Com esse desempenho, o Brasil superou o Canadá e passou a ocupar a terceira posição entre os maiores exportadores mundiais de carne suína, atrás apenas de Estados Unidos e União Europeia, considerada como bloco econômico. A confirmação definitiva da posição ainda depende da divulgação final dos dados canadenses, mas o movimento já reposiciona o país no comércio global da proteína.

Para o presidente da ABPA, Ricardo Santin, o avanço não pode ser interpretado como um fenômeno isolado ou meramente oportunista. “A confirmação da posição depende, ainda, da divulgação final de dados do Canadá. De qualquer forma, eu diria que esse avanço é resultado, antes de tudo, de fatores estruturais da suinocultura brasileira, ainda que o contexto internacional tenha acelerado esse movimento em alguns momentos. O Brasil vem construindo essa posição ao longo de muitos anos, com base em sanidade, organização produtiva, integração entre indústria e produtores e acesso gradual a mercados”, afirma.

Segundo Santin, fatores conjunturais também tiveram papel relevante, mas não explicam sozinhos o resultado. “É evidente que disputas comerciais, oscilações de demanda e eventos sanitários em outras regiões do mundo criaram janelas de oportunidade. Mas elas só foram aproveitadas porque o Brasil estava preparado. Não foi um crescimento oportunista ou episódico. Foi a consolidação de uma base técnica e produtiva sólida, que permitiu responder quando o mercado global precisou”, completa.

Mudança no tabuleiro dos destinos internacionais

Um dos elementos mais relevantes de 2025 foi a mudança no perfil dos destinos da carne suína brasileira. Pela primeira vez em anos, a China deixou de ser o principal comprador, cedendo espaço às Filipinas, que se tornaram o maior destino da proteína nacional.

As Filipinas importaram 392,9 mil toneladas de carne suína brasileira em 2025, crescimento de 54,5% em relação a 2024. Na sequência aparecem China, com 159,2 mil toneladas (queda de cerca de 33%), Chile, com 118,6 mil toneladas (+4,9%), Japão, com 114,4 mil toneladas (+22,4%), e Hong Kong, com 110,9 mil toneladas (+3,7%).

A retração chinesa ocorreu em um contexto de recomposição do rebanho local, reduzindo a necessidade de importações. Ao mesmo tempo, países do Sudeste Asiático e da América Latina ampliaram suas compras, absorvendo parte significativa da oferta brasileira.

Presidente da Frimesa, Elias Zydek: “O Brasil tem um sistema de produção competitivo para ocupar espaço e atender o aumento da demanda” – Foto: Divulgação/Frimesa

“Houve uma mudança significativa no tabuleiro dos destinos de exportação. As Filipinas se consolidaram como maior importadora da carne suína do Brasil, e outros mercados, como Japão e Chile, assumiram protagonismo entre os cinco maiores importadores. Isso demonstra a efetividade do processo de diversificação dos destinos da carne suína brasileira, o que reduz riscos, amplia oportunidades e reforça a presença do Brasil no mercado internacional, dando sustentação às expectativas positivas para este ano”, destaca Santin.

Para o presidente da ABPA, essa diversificação representa um divisor de águas para o setor. “Sem dúvida essa diversificação é um dos movimentos mais relevantes da suinocultura brasileira nos últimos anos. Reduzir a dependência excessiva de um único mercado foi um quadro impulsionado, também, por uma decisão estratégica, que traz estabilidade e reduz riscos”, afirma.

Santin acrescenta que a nova configuração muda o perfil do setor. “Hoje, as Filipinas se consolidaram como um parceiro central, ao lado de mercados como Japão, Chile e outros países da Ásia e da América Latina. Isso muda o perfil do setor, que passa a trabalhar com diferentes exigências sanitárias, padrões de consumo e modelos de contrato. Essa capilaridade torna a suinocultura brasileira mais resiliente e menos exposta a oscilações bruscas de política ou de demanda em um único país”, avalia.

Produção elevada, consumo estável e excedente exportável

O avanço das exportações ocorreu em um cenário de produção elevada. Os dados de 2025 ainda não foram consolidados pela ABPA, mas indicam crescimento. Em 2024, a produção brasileira de carne suína alcançou 5,305 milhões de toneladas. O consumo per capita foi estimado em 18,6 kg, indicando um mercado interno relativamente estável, capaz de absorver volumes importantes sem impedir o crescimento das exportações.

Mario Faccin, CEO da Master Agroindustrial, detalha planos de expansão voltados ao mercado externo: “Vamos ampliar o plantel em 20 mil a 22 mil matrizes e aumentar os suínos abatidos por dia para atender o mercado externo”, afirma o CEO da Master Agroindustrial, Mario Faccin – Foto: O Presente Rural

Esse equilíbrio entre oferta doméstica e excedente exportável é apontado como um dos pilares do modelo brasileiro. “O crescimento recente está muito mais associado a ganhos de produtividade do que a uma simples expansão de produção. Houve aumento de produção, sim, mas ele foi gradual e planejado. O grande diferencial da suinocultura brasileira nos últimos anos foi a eficiência”, afirma Santin.

Segundo ele, os avanços ocorreram em múltiplas frentes. “Avançamos em genética, manejo, nutrição, sanidade e integração. Isso permitiu produzir mais com a mesma base produtiva, com melhor conversão alimentar, menor mortalidade e maior padronização. Esse é um crescimento mais sustentável, que reduz riscos e dá previsibilidade. Tudo isso, pautado pela própria demanda do mercado, seja o interno ou o internacional”, completa.

Oferta, mercado interno e equilíbrio

O crescimento da produção e das exportações levanta, inevitavelmente, questionamentos sobre riscos de desequilíbrio entre oferta e demanda. Para Santin, o setor tem conseguido administrar essa equação.

“Esse é um ponto que o setor acompanha com muita atenção, com cada empresa fazendo as suas escolhas estratégicas relativas à própria produção. Até aqui, houve equilíbrio entre oferta e demanda. O mercado interno brasileiro segue absorvendo volumes importantes, com consumo relativamente estável, enquanto as exportações funcionam como válvula de equilíbrio”, afirma.

Ele reforça que a expansão não ocorre de forma dissociada do mercado. “A produção brasileira não está dissociada do mercado. A expansão ocorre de forma gradual, guiada por sinais de demanda identificados pelas próprias empresas. A diversificação de destinos e a previsibilidade sanitária ajudam justamente a evitar desequilíbrio”, diz.

Sul: o eixo da exportação

Photos: Shutterstock

O desempenho brasileiro tem base territorial concentrada. Santa Catarina responde por mais da metade das exportações brasileiras de carne suína, consolidando sua liderança histórica no setor. O estado bateu recordes de volume e faturamento em 2025, com forte presença em mercados como Japão, Filipinas e China, além de crescimento relevante para o México.

No Paraná, a Frimesa Cooperativa Central exerce papel determinante. A cooperativa é responsável por mais da metade da carne suína exportada pelo estado e respondeu, em 2025, por 8,2% das exportações brasileiras da proteína.

Para o presidente da Frimesa, Elias Zydek, o comércio internacional de carne suína é altamente dependente de fatores externos. “O comércio global da carne suína entre os países representa cerca de 8% de toda a produção mundial. Fato que confirma a produção destinada ao autoconsumo dos países. Desta forma, o crescimento mundial do comércio (exportações) depende do crescimento do consumo per capita e da redução da produção interna dos países”, afirma.

Zydek destaca que o Brasil reúne condições para ocupar esse espaço. “Nesse contexto, o Brasil tem um sistema de produção competitivo para ocupar espaço e atender o aumento da demanda. O mercado da carne suína depende muito de fatores externos como exigências de acordos comerciais, regulamentos sanitários, barreiras comerciais de tarifas, cotas e ressalvas e política cambial”, observa.

Investimentos e expansão industrial

O avanço das exportações é acompanhado por decisões estruturais de investimento. A Master Agroindustrial, em Videira (SC), opera com 40 mil matrizes em sistema verticalizado, produzindo cerca de 1,1 milhão de suínos terminados por ano. Aproximadamente 350 mil animais são vendidos vivos; o restante é destinado aos mercados interno e externo.

A empresa anunciou uma expansão focada exclusivamente na exportação. “Vamos ampliar o plantel em 20 mil a 22 mil matrizes, mas não vamos aumentar a oferta de suíno vivo. Vamos aumentar porque nossa capacidade industrial está aumentando. Vamos passar de três mil suínos abatidos por dia para cinco mil. E todo esse crescimento está direcionado não para o mercado interno, mas exclusivamente para o mercado externo”, afirma o CEO da Master Agroindustrial, Mario Faccin.

Na Frimesa, o planejamento segue a mesma lógica de crescimento gradual. “A expansão das exportações serão supridas com o aumento gradativo do número de matrizes pelas cooperativas filiadas e com a melhoria contínua da produtividade no sistema de produção”, afirma Zydek.

O plano industrial da cooperativa prevê alcançar 15 mil suínos abatidos por dia até 2027. Entre 2027 e 2032, está prevista a ampliação para 23 mil suínos abatidos por dia, com a implantação de uma nova linha de processamento.

Sustentação do terceiro lugar

A consolidação do Brasil como terceiro maior exportador mundial de carne suína ocorre em um ambiente de competição crescente. Enquanto o Brasil diversificou mercados e manteve custos competitivos, o Canadá enfrentou desafios e uma produção mais estagnada, perdendo fôlego relativo no comércio global.

Para Zydek, o Brasil reúne condições para manter a posição conquistada, embora o cenário exija atenção permanente. “O Brasil vai consolidar essa posição por longo tempo, devido às boas vantagens comparativas e competitivas que temos na suinocultura. Os desafios maiores estão no contexto geopolítico, relações internacionais, política macroeconômica e possíveis barreiras a serem criadas”, afirma.

O dirigente também destaca a importância da adaptação às exigências dos mercados. “O sistema de produção de suínos no Brasil já atingiu um bom nível de competitividade. A Frimesa implementou o Programa Suíno Certificado que atende todas as exigências do mercado internacional”, diz.

Do ponto de vista industrial, a mudança de patamar implica novos desafios. “O Brasil já está inserido no mercado internacional com seu sistema produtivo altamente competitivo. O desafio de agora em diante é atender às novas exigências que possam acontecer, como por exemplo, as necessidades ou escolhas dos consumidores”, destaca Zydek.

Para Ricardo Santin, o Brasil tem condições de sustentar a posição, mas o ranking não deve ser tratado como objetivo em si. “Acredito que o Brasil tem condições de sustentar essa posição nos próximos anos, mas é importante evitar uma leitura estática do ranking. O comércio internacional é dinâmico, e mudanças sempre podem ocorrer”, afirma.

“O que nos dá confiança é que o Brasil reúne fatores estruturais sólidos: sanidade reconhecida, capacidade produtiva, eficiência e diversificação de mercados. Isso nos coloca em uma posição confortável para manter relevância. Mas é importante reforçar: não trabalhamos com o objetivo de ‘defender posições em rankings’. Nosso foco é ser um fornecedor confiável, previsível e responsável. Se continuarmos cumprindo esse papel, a posição no ranking será consequência natural”, frisa o presidente da ABPA.

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